quarta-feira, 1 de junho de 2011

Pensamentos sobre os foras e a ética


Nessa pesquisa de campo que é a vida de uma pessoa solteira acontece assim: o tempo vai passando, a experiência vai se acumulando, assim como o número de, digamos, “entrevistados”! Pois bem, todos já sabemos que esta vaga não será preenchida por qualquer um, o que gera alguns inconvenientes.

Tais inconvenientes não existiriam se eu pudesse, como fazem algumas empresas, enviar uma destas cartas padrão, assinadas pelo diretor do departamento (no caso eu mesma) dizendo: “obrigada por participar do processo de seleção, mas a vaga já foi preenchida. Manteremos seu currículo conosco e entraremos em contato caso necessário.” Como ainda não sou capaz de tal façanha estou refletindo sobre qual seria a melhor forma de avisar aos candidatos que o perfil deles não se encaixa na vaga.

Dependendo do grau em que está a relação ainda é possível sair pela tangente até ele desistir, utilizando, ou melhor, finalizando mensagens com frases do tipo: “a gente se vê…”, “vamos marcar qualquer dia desses…” ou “a gente vai se falando…”. Na verdade, os gerúndios e os foras são primos irmãos!

Mas para piorar a minha situação, numa consultoria que fiz com um amigo do sexo oposto, fui informada que os caras não funcionam a base de indiretas. Isso de pensar que só porque não atendemos as últimas cinco ligações ele vai “perceber” que não estamos a fim não é eficaz e minha experiência tem provado que de fato não é. Mas isso vale para nós mulheres também. Funciona igual. É duro aceitar, mas o silêncio diz muito.

Para deixar a coisa menos pessoal me aconselharam o fora com ajuda do Excel. Foi o fora mais racional que vi até agora. Você faz uma planilha com as características ideais de uma pessoa (ser que obviamente não existe) e vai preenchendo com as características  reais do gatinho do momento. Caso a pessoa não se acerque ao seu ideal você pode anexar a planilha e mandar dizendo que não é nada pessoal, apenas não é o que você esta procurando! Dá até para mandar com uma analise, tipo: “você é introvertido demais, gosto musical abaixo do esperado e é ruivo, mas nada pessoal, hein?!”

Me pergunto porque é tão penoso dar o fora em alguém, a ponto de utilizarmos técnicas tão baixas como, por exemplo, sumir! É fato que não é agradável ser portador de más noticias, mas sinceramente tenho, pelo menos alguma consciência de que não sou, nem a melhor, nem a última mulher do planeta, que possivelmente o cara deve ter outra gata na manga e que já não se morre de desilusão amorosa.

Como a situação é difícil mesmo, mas estou a fim a ajudar a construir um mundo mais ético, cheguei a alguns parâmetros para desenvolver o melhor fora possível:

1. Não faça com os outros o que não gostaria que fizessem com você, como desaparecer da face de Terra, por exemplo! Mas eu fico tranqüila porque um ato covarde como esse não poderia vir de uma pessoa muito bacana! Tchau!!
2. O fora pode ser sincero. Não vale dizer que se mudou para Mogi ou que esta namorando outra pessoa já que mentira tem perna curta e o índice de coincidências esta muito alto para arriscar uma mentira!
3. E honestidade com moderação! Não prego o extremismo. Verdade sem ofender, claro. Não vale dizer coisas do tipo, você beija mal, tem bafo e não passou na triagem!
4. Não precisa dar explicações detalhadas. Agir com neutralidade, a final não cabe dar satisfações a uma pessoa que esta sendo convidada a se retirar de campo.
5. Mas, principalmente, o fora tem que ser eficiênte, assertivo, ou seja, que não deixe margem de dúvida.
6. E para finalizar, se possível, que seja com um toque de humor para quebrar o clima no final.

Cabe uma observação: a postura do outro é fundamental para um bom desfecho! Um bom fora também se faz a dois!

 Dar e levar foras faz parte da vida e estar em ambas as posições tem prós e contras. Acho que o importante é ter um balanço. Isso mesmo! Acho imprescindível vivenciar com alguma freqüência os dois papéis, pois a memória é curta quando não interessa!

Quando damos um fora ético em alguém aprendemos a olhar e a lidar com o outro, enfrentar situações que implicam em diversos níveis de valentia, nos obrigamos a refletir sobre o que queremos e porque nos metemos em certas situações. Além disso temos mais uma chance de perceber que o outro não é responsabilidade nossa. Cada um que procure o seu analista!

Quando recebemos um fora descemos do pedestal. Num primeiro momento ficamos devastados, desolados, mas como já dizia o amigo da Mi, o imperador Marco Aurélio (século II) em suas Meditações: "tudo aquilo que você vê agora mudará dentro de um instante e em seguida não mais existirá." Experiência importantíssima para provar que não morreremos disso, para aprender a dar um ponto final em expectativas e sonhos sem perspectiva e virar a página, de forma cada vez mais eficiente.

Como não está em nossas mãos, o negócio é torcer por um equilíbrio saudável entre dar e levar foras (de preferência dar um pouquinho mais que levar), mas seja lá o que vier pela frente repito o que disse a pouco a um ex-futuro: é sempre bom tirar o coração do armário!

Olivia Mattos

6 comentários:

  1. Olivia, o texto está muito bom, acho que ele reflete sobre algo muito importante: o término das relações, e saber terminar algo é importante para começarmos algo diferente. Estar solteiro é uma oportunidade para crescer, ou para brincar, cabe a cada um escolher, e espero que você escolha a primeira. Assim, dois pontos do texto me incomodaram um pouco, acho desagradável terminar com uma piada, afinal piada boa a gente ri junto e a único tranquilo o suficiente para rir nesta situação é quem dá o fora, provavelmente, ele é o único que está sentindo um alívio libertador que torna a risada sincera e fácil, mas no entanto, também um pouco sádica. O segundo ponto, é que não meça a relação entre foras dados e recebidos, porque a vida nunca vai ser possível de ser reduzida a uma relação matemática, e apesar do término ser muito importante, fundamental mesmo são os momentos vivemos nos aproximando, e não os que vivemos nos afastando.

    O final do texto está excelente e repito: "'É sempre bom tirar o coração do armário!"

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  2. Cara amiga Olivia, independente desse equilíbrio entre dar ou levar fora, e levando em consideração "É sempre bom tirar o coração do armário!" Faço presente minha nova teoria.
    Todo mundo precisa de um roto-rooter,em nossas vidas, como iremos liberar o encanamento daquelas sujeiras que ao longo das nossas lavadas de roupa suja vão sendo acumuladas no ralo do tanque ou até mesmo inicio do cano bem naquela curvinha que nos impede de enxergar a olho nu, mas só percebemos que a água não dá mais vazão nas próximas lavadas, nos impedindo de lavar até mesmo nossas calcinhas.
    O Roto-rooter não é o que vai trazer a plena felicidade nas nossas vidas, mas sem ele é impossível lavar nem mesmo as nossas calcinhas.... Tem coisa mais irritante do água parada??? essencial para que nas próximas lavadas o tanque não transborde.

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  3. Olívia, o post está excelente! Parabéns pelo texto e pela análise tão lúcida. "Tire o seu coração do armário" poderia até virar uma campanha... Rsrs... Afinal, hoje em dia predomina o medo da entrega, do compromisso, a falta de sinceridade e de verdade nos relacionamentos. E, por que não,de humor? Entendo perfeitamente sua "vista do ponto".
    E lembre: o jogo não pode terminar empatado, hein? Rsrs...

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  4. Gente! A parte do coração no armário fez eco por aí! Fez efeito! Isso quer dizer que fez sentido para muitos!!!! Lançamos a campanha !?!

    Acho que, em parte, a dificuldade em se entregar vem do medo de um final infeliz, não acham? "E se não der certo?"

    E com o tempo, com o acúmulo de decepções, frustrações, expectativas não cumpridas e anos, vamos ficando cada vez mais "durinhos". Além disso, observo que já não está valendo a pena desperdiçar o tempo com relação que não valem a pena de fato. Conclusão: botamos o coração no armário. Mas será que precisamos de tanta proteção?

    Agora...se nós aprendermos a lidar com o tema "separação" de outra forma (e é o que tenho tentado dizer aqui desde o começo) a entrega pode ficar um pouco mais simples!

    Vamos lá!

    NESSE INVERNO TIRE SEU CORACÃO DO ARMÁRIO!!!

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  5. @ Luis Felipe.
    Oi Lú, obrigada pela opnião! Mas olha só...um toque de humor está longe de ser uma piada! A ideia não é tirar sarro da cara do outro, mas sim dar um tom menos pesado para a situação. É completamente diferente.
    E sobre o outro ponto, não acho que o único que está em condições de rir é quem dá o fora. Na verdade estão ambos na mesma situação! Não estou falando aqui de sentmentos, mas sim da relação!! Uma relação não é uma luta entre dois adversários, onde um perde e outro ganha, um ri e outro chora. E aí não cabe sadismo nenhum. A relação não estava funcionando para nenhum dos dois e por isso, embora um seja quem nomeie a situação, verbalize, tenha a atitude, no fim o faz pelos dois! E justamente por isso acho que pode haver entendimento, mesmo na hora do divórcio!
    Beijos!!

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  6. Olá Olivia,

    Ainda acho que não, uma coisa é rir juntos de alguma coisa que passaram juntos, durante esta conversa, e concordo, mas qualquer tentativa de deixar o clima mais leve sou contra. A verdade é que é uma situação séria e assim deve ser tratada. Ambos não estão na mesma situação, sem romantismo, dar fora e levar são situações muito diferentes, ao final da conversa um lado estará mais leve do que o outro, a vida é assim, isto não implica em desentendimento, apenas em diferença, e devemos tomar cuidado para se colocar na situação do outro como forma de respeito. Por isso, concordo muito com o que foi dito, mas sou contra qualquer "dica" sobre piada nesta situação para quebrar o clima, é sentir o peso do clima que nos ajuda a amadurecer.
    Um beijo

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